Na Escola de Tempo Integral (ETI) Cora Coralina, localizada na região norte de Palmas, o aprendizado de dois estudantes surdos tem ganhado novos caminhos a partir de uma experiência que une o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a alfabetização. O trabalho é desenvolvido pelo professor Lucas Fagundes Maranhão, que também é surdo e tem utilizado a própria vivência na comunidade para contribuir com o desenvolvimento dos alunos.
Nos momentos de descanso, Lucas permanece com os estudantes na sala de recursos e transforma o intervalo em uma oportunidade de aprender brincando. Com o uso das mesas alfabetizadoras e de outras atividades lúdicas, os alunos participam de brincadeiras que estimulam a comunicação, a alfabetização e a aprendizagem de forma leve e prazerosa.
Segundo a diretora da ETI, Michele Morais Domingos, a presença de um professor surdo também representa uma experiência nova para a escola e amplia as possibilidades de atendimento aos estudantes. Para Antônio Gabriel Ferreira Nunes, do quinto ano, um dos alunos acompanhados por Lucas, essa presença tem sido especialmente significativa, pois ele é filho de uma família ouvinte e não tinha contato com a comunidade surda. “Quando começou a ser atendido pelo professor, em junho deste ano, ele ainda não dominava Libras e também não tinha conhecimentos consolidados da língua portuguesa. Nesse contexto, o trabalho precisava ir além da interpretação”, explica Michele.
Aprendizagem simultânea
Formado em Letras-Libras, Lucas tem desenvolvido com o estudante um processo de aprendizagem simultânea: enquanto ensina a língua de sinais, trabalha também a alfabetização em português e apresenta aos alunos aspectos da cultura e da identidade surda. Michele conta que a estratégia tem produzido resultados importantes. Segundo o acompanhamento realizado pela escola, Antônio apresentou uma evolução significativa desde o início do atendimento, ampliando sua comunicação e avançando no processo de alfabetização.
Lucas observa que, no caso de Antônio, por ainda não conhecer a Libras, a simples presença de um intérprete não seria suficiente. “O trabalho que venho fazendo possibilita que o Antônio primeiro construa uma língua de comunicação e, a partir dela, avance na aprendizagem da língua portuguesa. Tem sido uma experiência muito interessante, muito fantástica. O Antônio melhorou muito desde que começamos”, avalia o professor.
Diferentes caminhos
Com a estudante do primeiro ano Rebeca Jade Araújo Sampaio, a realidade é diferente. Ela já faz parte da comunidade surda, possui conhecimento de Libras e se comunica com fluência na língua. Nesse caso, o trabalho desenvolvido por Lucas utiliza a Libras como base para o processo de alfabetização em língua portuguesa.
“A experiência com os dois alunos mostra diferentes caminhos para a educação de estudantes surdos. Enquanto Antônio está construindo sua comunicação em Libras e, paralelamente, avançando na língua portuguesa, a estudante Rebeca, que já domina Libras, utiliza essa língua como suporte para ampliar seus conhecimentos em português”, relata.
